Também é terapia: o que fazer com o anseio de não saber o que falar?

Antes mesmo da primeira sessão, uma pergunta costuma aparecer antes de qualquer outra: "e se eu não tiver o que falar?"
Ela volta em momentos diferentes. No dia anterior à sessão, quando a agenda lembra do horário e a cabeça vai procurando, meio às pressas, algo que "justifique" aquele espaço. Ou já sentado no consultório, num silêncio que parece maior do que é, com a sensação de estar devendo um assunto à altura.
Por trás dessa pergunta, quase sempre, existe uma crença que ninguém verbaliza, mas que orienta silenciosamente: a de que terapia é lugar só para o que dói muito. Para a crise, o diagnóstico, a notícia ruim, o rompimento. Como se os outros 50 minutos, os que não têm nome de sintoma não tivessem lugar ali.
A pergunta que sustenta tudo isso
Se a terapia fosse só 50 minutos de coisas ruins, toda semana, sem exceção, quem teria vontade de voltar?
Essa pergunta simples desmonta uma expectativa que muita gente carrega sem perceber. A ideia de que só o que pesa é "conteúdo de terapia" transforma a sessão numa espécie de prestação de contas do sofrimento: quanto mais grave, mais legítimo. E isso empurra pra fora tudo que não se encaixa nessa régua, inclusive o que é bom.
O que também é terapia
Terapia também é falar do filme que você assistiu e ficou pensando por dias, sem saber exatamente por quê. Da música que entrou no repeat sem pedir licença. Do dia em que tudo deu certo e, ainda assim, sobrou aquela sensação estranha de não merecer.
É falar do almoço em família que foi surpreendentemente leve, depois de tantos que não foram. Da conquista pequena que ninguém mais sabe o quanto custou. Do momento feliz que quase passou despercebido, porque você não tinha o hábito de parar pra registrar que ele existiu.
Nada disso é "assunto de menos". É justamente o tipo de material que a terapia existe para acolher, porque revela como você vive, sente, evita e se permite. E é aí que mora uma função da terapia que pouco se fala: ela não serve só para tratar o que machuca, serve também para treinar a atenção para o que alivia.
Por que a mente vai direto para o que pesa
Existe uma explicação para o motivo de ser tão mais fácil chegar numa sessão com uma lista de problemas do que com uma cena boa da semana: nossa atenção tem uma tendência natural a priorizar ameaça, risco e dor, é uma espécie de viés de sobrevivência, útil em muitos contextos, mas que também apaga do radar boa parte do que é neutro ou bom.
Sem um espaço que convide a olhar para isso, essa tendência segue sem contestação. A pessoa se torna especialista em narrar o que dói e amadora em reconhecer o que sustenta. Uma das coisas que a terapia cognitivo-comportamental trabalha é justamente essa ampliação: não negar a dor, mas devolver à consciência aquilo que o piloto automático do sofrimento deixou de fora o alívio, a satisfação, o orgulho discreto, a leveza que passou batido.
Quando não vier nada à cabeça
Vale dizer também: é comum chegar numa sessão sem nenhum assunto "pronto" nem pesado, nem leve. E essa sensação de mente em branco não é um problema a ser escondido do psicólogo. É, ela mesma, um material válido.
Dizer "não sei bem o que trazer hoje" já é um início legítimo. Muitas vezes é dali, desse não saber, que surge o que realmente precisava ser dito, só que ainda sem palavras prontas. Não existe uma pauta obrigatória para entrar numa sessão. Existe, sim, a permissão de chegar como se está, com o que se tem, mesmo que pareça pouco.
Os 50 minutos são seus
Isso muda a pergunta que costuma gerar tanta ansiedade antes da sessão. Não é mais "o que eu preciso trazer para merecer estar aqui", e sim "o que estava presente em mim essa semana —pesado, leve, confuso ou bom".
Os 50 minutos são seus. Para tudo que é seu: o que pesa e o que alivia, o que drena e o que alimenta, o que você evita sentir e o que ainda não se permitiu celebrar. Inclusive para a leveza que também precisa de espaço para ser notada, e não só vivida de passagem.